ENTREVISTAS E DEPOIMENTOS - Ana Léon

Ana Léon, artista
(entrevista telefónica realizada em Maio 2010)

Basicamente gostava de tentar perceber o tipo de envolvimento que teve com o grupo. Como é que estando já em Paris, à distância, se envolveu na exposição (porque eu penso que não chegou a vir à inauguração, pois não)?

R: Por acaso nessa não vim, mas houve outras em que estive presente. Na da Galeria Metrópole estive. Nesta por acaso não pude vir.

A primeira pergunta tinha a ver com o tentar perceber que tipo de envolvimento é que teve com o grupo. Eu sei que foram todos colegas ...

R: Andámos todos na Escola de Belas Artes de Lisboa e dentro da Escola talvez fossemos das pessoas que se tenham mexido um bocado mais. Isto foi um início de um trabalho que eu diria individual e colectivo, ao mesmo tempo, porque nós tínhamos noção desde o princípio que cada um iria funcionar de uma maneira diferente mas que a nossa força seria, também, o facto de começarmos juntos.

Portanto não havia um programa estético ou conceptual que vos unisse (conheciam e estavam conscientes dos percursos individuais de cada um e assim os queriam manter) mas havia uma noção de que estrategicamente poderiam funcionar melhor através desta partilha dos projectos e dos espaços expositivos. É isso?

R: Sim, sim. Eu penso que nós todos, apesar de hoje em dia não estarmos permanentemente em contacto, seguíamos atentamente o que os outros faziam e fazem.

Em relação à exposição propriamente dita, houve uma série de decisões que tiveram que ser tomadas antes. Estando a Ana Léon em Paris, como é que se processavam estes contactos e de que forma é que participou nestas decisões (por exemplo, em relação ao catálogo, à montagem)?

R: Havia correio (físico) na altura e comunicávamos por carta. Sabíamos com antecedência que espaço é que havia, quem é que ia escrever os textos. Em relação às imagens, por questões de espaço tive que colocar na minha página só uma imagem quando na realidade as minhas obras eram conjuntos de desenhos grandes a pastel.

Os restantes artistas afirmaram que todas as obras que cada um de vocês produziu, foram concebidas especificamente para o contexto da exposição. As suas também foram?

R: Foram sim.

Mas também me disseram que se iam encontrando durante a preparação da exposição para ver o desenrolar dos trabalhos de cada um. Em relação ao seu trabalho, e uma vez que estava fora de Portugal, como é que foi feito este acompanhamento?

R: Os outros artistas conheciam e estavam a par do meu trabalho e, como comunicávamos, eles estavam perfeitamente a par de que eu iria mandar (não sei quantas séries destes desenhos e fazendo umas multiplicações muito simples dava logo a imagem do espaço que estes desenhos iam ocupar na exposição e era muito clara a maneira como eles iam funcionar). Talvez o artista que eu acompanhei menos e do qual soube menos o que é que ia apresentar, acabou por ser o Pedro Cabrita porque ele trabalhava muito intensamente sempre em cima da hora, e eu lembro-me que a imagem do catálogo (não tendo ele ainda as pinturas acabadas) chegou a ser uma imagem de atelier. Ou seja, sabíamos perfeitamente e quase na totalidade o que é que cada um ia apresentar. A minha distancia acabou portanto por não ser muito relevante.

Exacto, porque iam conseguindo acompanhar os progressos dos trabalhos e o decorrer dos percursos.

R: Pois. E eu não pude vir à inauguração mas vinha com regularidade a Lisboa, e víamo-nos e encontrávamo-nos nos ateliers uns dos outros.

Dois anos antes de se realizar esta exposição “Arquipélago” na SNBA (em 1985), tinha acontecido uma outra exposição – a “Depois do Modernismo”. A Ana Léon estava cá nessa altura ainda?

R: Já não estava. 1983 foi o ano de trânsito para Paris.

Mas recebeu ecos do que era a exposição? Tem uma ideia?

R: Sim. Inclusivamente até tenho a impressão que tenho o catálogo.

Eu estou a falar-lhe nisto porque, de alguma forma, na nossa história recente o “Depois do Modernismo” terá pretendido funcionar como uma espécie de momento inaugural da nossa era pós-moderna. O “Depois do Modernismo” foi não só uma exposição mas uma série de eventos em torno da exposição. Havia uma grande valorização da Arquitectura, houve uma série de eventos ligados à Moda. Mas pensando só na exposição, a exposição tinha ainda uma série de nomes ligados, digamos, à conjuntura anterior, alguns nomes que estiveram até na “Alternativa Zero” e que tinham um percurso até mais ligado às práticas conceptuais e que apareciam agora ali ligados a esta nova conjuntura. Reforçado pelo facto de nenhum de vós, à excepção do Pedro Calapez, ter estado presente na exposição, ao olharmos hoje para estas duas exposições – “Depois do Modernismo” e “Arquipélago” – acha que podemos afirmar que a exposição “Arquipélago” acabou por ser sim, essa, a exposição inauguradora desta nova conjuntura?

R: Estou de acordo. Também acho. Também tenho essa noção.

E em que medida é que acha isso? Acha que teve a ver com o facto de a exposição congregar estes percursos individuais tão afirmativos mas no entanto apresentar-se de uma forma coesa e muito articulada?

R: Sim completamente. Acho.

O que é que no seu percurso se alterou depois da exposição? Se é que se alterou alguma coisa (em relação ao seu trabalho).

R: Em relação ao meu trabalho, ele teve sempre em evolução, mas se formos ver estes desenhos que eu apresentei, é uma coisa que depois mais tarde me fez partir para os filmes e para as animações que faço actualmente. Eu acho que em cada um já lá estava o núcleo do trabalho que, apesar de tudo, passou por suportes bastante diferentes, mas quer seja no desenho ou na pintura (nas pinturas que fiz fragmentadas mais tarde na Galeria Alda Cortez ou na primeira exposição, o primeiro filme que apresentei onde havia metamorfoses). Esse foi mesmo o momento da passagem de um material para o outro. A entrada nos super 8’s e nos filmes. Isto para lhe responder muito simplesmente à pergunta sobre a evolução do trabalho.

Portanto considera que esse momento também foi, de alguma forma, inaugurador para si?

R: Sim. Houve três exposições importantes na altura. A primeira foi o “Azul, Vermelho” na Galeria Diferença, depois foi outra exposição que fiz com o Pedro Calapez só de desenhos (esse catálogo é mais raro) em que enchíamos as paredes com uns desenhos gigantes.

Eram esses desenhos que eram feitos a dois?

R: Não, não. Esses nunca foram expostos. São desenhos que nós fizemos de atelier. Eu naquela altura era uma pessoa muito pouco de arquivar e o Pedro Calapez é uma pessoa extremamente organizada nesse aspecto e penso que ele terá ficado com eles todos. Os desenhos que apresentámos nessa exposição eram constituídos por duas séries de desenhos a grafite – uma do Pedro Calapez, outra minha – parede contra parede, se não me engano, e depois havia uma série de desenhos meus a pastel. O catálogo era em serigrafia (nós fazíamos tudo em serigrafia e à mão, tinha por isso um número de exemplares muito limitado).

Já vimos então que aquelas séries de desenhos apresentadas na exposição “Arquipélago” lhe permitiram abrir depois caminho para uma série de outras coisas. E em relação ao seu percurso, à sua carreira houve algum tipo de alteração? Pergunto isto, porque a exposição teve um feedback muito positivo não só por parte do público em geral (que aderiu completamente na inauguração) como por parte da crítica.

R: Apesar de já estar cá, eu acho que sim, que foi importante para depois começar a trabalhar com uma galeria. Aliás acabámos, mais tarde, por nos encontrar quase todos na mesma galeria – a Alda Cortez. Na altura, não vivendo já em Lisboa, a minha situação é um bocado diferente, mas para os outros artistas penso que terá tido a maior importância. Foi mesmo o princípio para depois seguir cada um a sua via.

Pronto. Não sei se quer acrescentar mais alguma coisa que eu não lhe tenha perguntado e que considere relevante.

R: Do que eu me lembro, e nós temos sempre um bocadinho de nostalgia em relação a esse período, foi assim um começo bastante exaltante e claro que isso tem a ver com o facto de em Lisboa haver na altura muito pouca coisa a acontecer e portanto foi assim uma espécie de acordar. Foi uma década em que aconteceu realmente alguma coisa. O contexto era vazio e no vazio, quem faz qualquer coisa é um bocado rei, não é? Mas já nas Belas Artes se sentia muito isso, mesmo a importância das Belas Artes para mim foram mais estes encontros do que a Escola em si (que se tornou uma coisa completamente secundária, ao ponto de alguns de nós nem terem concluído o curso, o que não foi o meu caso porque precisava da Bolsa e portanto tive de concluir).

O Rui Sanches não foi vosso colega, estudou nos EUA e em Inglaterra.

R: Sim, o Rui Sanches foi a última pessoa que eu conheci. Estava sem estar, já fazia parte e depois acabou mesmo por estar na exposição. Ele em Londres e eu em Paris era um bocadinho difícil, mas depois encontrávamo-nos em Lisboa.

A Ana Léon também esteve ligada à Associação de Estudantes nas Belas Artes? E à revista?

R: Estive, estive. Aliás, estivemos quase todos. São coisas antigas mas das quais ainda nos lembramos perfeitamente. Foram marcantes.

Segundo a informação que pude recolher e os depoimentos que já recolhi também, falam justamente disso, de que a actividade na Associação de Estudantes era muito potenciadora de uma hiper-actividade criativa que vos dava energia para quererem fazer muitas coisas juntos.

R. Sim completamente. Mas nem toda a gente seguiu este percurso. Foi também depois uma questão de personalidade e de afinidades mas havia esta perfeita consciência de que podíamos ter toda a liberdade individual. Tudo isto são pontos de partida, são ocasiões que geram estas situações. Depois éramos quatro, cinco pessoas no meio daquela gente toda. Tínhamos a noção de que íamos fazer qualquer coisa, de que era preciso fazer qualquer coisa, que era preciso sair dali (e que era preciso sair do país eventualmente).

Há uma entrevista muito curiosa que eu encontrei, dada ao Alexandre Melo e ao João Pinharanda em 1983, em que eles entrevistam dois grupos mais ou menos contemporâneos – vocês por um lado e o outro grupo com o Pedro Casqueiro, a Ana Vidigal, a Madalena Coelho ...

R: Desculpe interromper, não seria uma entrevista em que eu não estava presente? Uma entrevista na qual o Pedro Cabrita lançava uma célebre frase: “Nós somos os melhores”?

Era essa mesmo.

R. Eu não pude estar presente nessa entrevista. Na altura soube que foi feita, mas também não estava muito preocupada em participar e sabia que havia gente suficiente para falar. Mas recebi esse jornal pelo correio.

Por um lado havia portanto esta atitude que pode ser tomada como provocatória (de alguém que se auto-afirma), mas de alguma forma também revelava ...

R: Isso é uma frase típica do Pedro Cabrita. Funcionava, porque era preciso provocar e agitar, mas no fundo acabava por ser conscientemente assumida por todos.

Exacto, no fundo também era uma convicção que vocês próprios tinham. Não seriam os melhores em relação a outros quaisquer mas seriam os melhores porque estariam a dar o vosso melhor.

R. Sim. Porque estávamos a mexer, a agitar e tinha que se continuar a fazer qualquer coisa. Era resultado de uma indignação do tipo: “Como é possível que não se faça nada?”. “Como é possível que não haja galerias a abrir e que não haja instituições?”. A noção que nós tínhamos era que em Espanha as coisas se passaram muito mais depressa. Eu não estava presente mas sei que veio à inauguração a Juana de Aizpuru e algumas outras pessoas e que foi aí que eles começaram a interessar-se pelo nosso trabalho e foram eles que nos puxaram. E essas coisas todas foram muito importantes nas carreiras de todos nós. Tivemos a noção de que a Espanha também ajudou imenso, que os galeristas espanhóis (que já estavam mais acordados e já tinham mais experiência) também ajudaram muito.

Pois também o mercado em Portugal nessa altura era complicadíssimo.

R: sim, sim. Mas tinha que haver vontade. Havia muito poucos e começavam naquela altura timidamente a apostar em gente mais nova mas mesmo assim muito discretamente. Hoje em dia é muito diferente.